segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Lembranças do quê?


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E lá vou eu embarcando em mais uma daquelas arrumações na vida. Daquelas em que a gente espalha tudo e aos poucos vai separando o que presta do que não presta, e o que presta, mas não queremos mais do que não presta, mas queremos mesmo assim. E haja espaço. Aliás, é para isso que servem as arrumações: para se ganhar espaço. Sei que não sou a única a sofrer da mania de querer guardar tudo e não ter mais onde colocar nada. Andei até reabrindo umas caixinhas e encontrando uma porção daquelas coisinhas que a gente guarda como lembrança de alguma coisa. Um momento, uma pessoa, uma amizade, um amor, uma emoção, um medo, um segredo, uma fase, um dia, uma noite, uma conquista, uma derrota, uma despedida, um encontro, um desencontro, enfim, seja lá o que for... Um anel prateado e largo. Um anelzinho pequeno, dourado meio desbotado e um outro com uma pedra violeta. Um ímã de geladeira. Um carefree. Uma florzinha de canudo. Um origami azul minúsculo. Um crucifixo de madeira. Uma casinha verde de Banco Imobiliário. Uma tampa de garrafa e o rótulo de outra. Uma pulseira quebrada. Um apito. Um broche. Um brinco sem par. Um nariz de palhaço. Uma correntinha enferrujada. Um pedaço de doce de abóbora plastificado (?). Um pingente amassado. Um pedaço de guardanapo de papel. Uma ficha telefônica. Um pequeno sabonete em formato de sol... Enfim, são tantas coisinhas, são tantas as lembranças... Mas, lembranças do que mesmo? Por tanto tempo, as lembrancinhas estiveram guardadas, com tanto amor e carinho, por tanto tempo, tempo suficiente para eu esquecer o que elas deveriam lembrar. Juro que eu me esforço, fecho os olhos, seguro o objeto com força, mas não dá. Eu não lembro. O prazo de validade da “lembrancinha” venceu, sei lá. Rever tudo isso até que era para ser uma coisa bonita, saudosista e tal... Mas, me rendeu apenas uma limpeza e uma nova arrumação. Ficarão guardadas por mais tempo. Quem sabe um dia eu lembre, mesmo que seja da coisa errada, ou não, e nem faz diferença. De qualquer forma, é legal tê-las lá, ter aquelas lembranças mesmo não lembrando o que elas deveriam lembrar. Não é nada fácil se livrar disso. Por isso, as minhas lembranças – sejam lá do que for – continuarão guardadas com o carinho que merecem, por um tempo que só o tempo vai definir.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Bianca por entre os dedos

Tentava camuflar o livro entre os dedos miúdos. Talvez por vergonha do que lia (afinal, hoje em dia, você pode julgar negativamente quem lê Paulo Coelho ou ser cínico e provocador e dizer que odeia livros cabeças para quem traz um Foucault) Ou, talvez para despertar maior interesse daquela que acreditava vigiá-lo secretamente. Mas não precisava, Bianca era toda, completamente, perfeita curiosidade.

E ele o lia por entre a multidão quase invisível aos seus olhos discretos e interessantes. Ela era capaz de notar e imaginar cada vida, cada história, cada medo e cada sonho que lhe rodeavam. Bianca era esperta ao que acontecia à sua volta. Eram raras as vezes em que se pegava se sentindo só. Ela olhava pés e andares, mãos e gestos, bocas e verbos. E ela os lia como quem desvendasse uma selva num jogo de videogame, e sempre ganhava.

E ele, ao contrário, fechava-se nas entrelinhas de um outro mundo. Aparentemente, alheio ao de Bianca. Mas não havia problema algum. Era isso o que Bianca queria. Ela queria as cartas. As cartas anônimas sabe-se lá se enviadas ou recebidas. Bianca se satisfazia com o impopular, impróprio e improvável. A vitória era essa afinal, e não escaparia pelas entrelinhas dos seus dedos.


(Só porque a orelha dela esquentou)

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

meios

Continuo viva e sem esquecer nem dos vivos e nem dos mortos. Porque o que nós somos nem mesmo me importa diante daquilo que eu penso ou quero ser, do que vivo, do que vivi e do que pretendo ainda - se me for possível - viver. Retomar o princípio me lembra que há uma história, um sentimento, um sentido... Para onde eles levam? É... Quero saber e nem quero também, pois dá a sensação de final... E isso não me agrada. Mas a curiosidade não é cega e nem invisível.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

[da poesia]


.música.
.cinema.

.e amor.


[tá, e um pouco de café também].

segunda-feira, 7 de julho de 2008

monólogo. é. que. complica. [?]

Que conversa é essa? De palavras às vezes irreais e sem sentido. Não que seja falta de compreensão, é apenas um outro olhar de olhos que nem sei se valem a pena perseguir. Ser sem sentido se traduz por ser sem motivo. Ou sem motivos. Invisíveis e presentes apenas em algumas canções sem melodia.

Enquanto eu tomo rumo e escolho as expressões uma a uma, o mal vem no caminho, pelos lados que eu nem quero ver e pra isso preciso fingir não ser eu mesma. Mesmo tendo coragem, agora.

Construo as histórias e seus personagens. Não sei se é isso o que importa, mas creio estar fazendo o meu papel ou parte dele. Num certo momento, vejo que é grosseiro explicar e detalhar tudo. Primeiro irrita à mim.

"E agora?"

Eu até tenho o que falar e sei o que deve ser dito. Até imagino o que vou ouvir - porque eu já falei, um dia. Fica tão claro que chego a fechar os olhos. É quando prefiro voltar às minhas entrelinhas de pontos meio marginais.

É que na hora da tradução eu mudo tudo, mesmo sendo com um sorriso discreto no canto da boca. Mesmo sendo com o desvio do olhar pra um lado qualquer, assim, de propósito e mal-criado.

E então me contento com a sensação de continuar com os pés um do lado do outro, sem passo pra nenhum lugar. Onde o outro é apenas o outro. O Outro-outro, no caso o Eu, é que complica, confunde, não resolve, não esquece, não atura, se arrepende.

No momento de deixar os olhos molhadinhos e se recolher, um passarinho canta um canto num estilo de desencanto. Porque o recolhimento tem lá o seu glamour e as suas funções indispensáveis, vitais.

E eu me pergunto: "Quando?"

Conto os dias, espero pelo que sei que vou querer jogar no lixo na maioria das horas. Mas me convenço do contrário. Já não disse que o Eu é que complica? Pois é. Procuro o mercado dos controles, preciso dum que funcione para pensamentos.


*Foto: [eu que fiz\o/] monólogo "Carta de Um Pirata", pela primeira vez em Rio Branco, se não me engano, em 2005.

sábado, 7 de junho de 2008

São coisas do coração

Eu não sei em qual momento da história humana foi convencionado que as emoções e os sentimentos são ligados ao coração, o órgão responsável pela oxigenação e circulação do sangue no corpo do ser vivo. E mais, queria saber como se chegou ao formato romântico do coração. Sim, porque eu passei muito tempo imaginando um coração dentro de mim num formato daqueles que a gente vê nos cartões de amor. Imaginando ainda, ele batendo de um lado pro outro, preso através de uma cordinha, tipo aqueles ponteiros de relógios Tic-Tac de parede de desenho animado.

E tem mais: meu irmão me dizia para não engolir chiclete porque ele poderia fazer o meu coração grudar na parede do meu corpo durante essas batidas. Então, meu coração iria parar e eu iria morrer. Pois sem coração ninguém vive. É verdade, assim como ninguém vive sem pulmão, rim, fígado... Não é? Então poderíamos escrever um bilhetinho de amor e, em vez de desenhar um coraçãozinho, por que não um pulmãozinho?

Eu não sei se é físico ou psicológico. Mas quando eu sinto uma emoção forte, sinto que algo atinge o meu coração mesmo, de verdade. É como se alguém o pegasse e o espremesse bem forte com a mão. Ou como se ele fosse alfinetado com bastante força, mas não chegasse a furar.

Eu costumo sentir isso quando as borboletas voam loucamente atrás de mim. Mas essa é uma situação irrelevante. Porque eu sinto isso mesmo é quando recebo uma notícia triste, ouço o que não quero, sei lá. Vai direto pro coração, como se alguém tivesse um bonequinho de Vodoo e bem naquele momento espetasse o coitado do meu órgão responsável pela oxigenação e circulação do meu sangue.

Bem, eu devo ter faltado a alguma aula de biologia. Eu queria saber mesmo se é normal sentir essa dorzinha chata no coração quando a gente se depara com alguma situaçãozinha nada agradável ou com algo muitissímamente bom. Vai que eu esteja tendo um ataque cardíaco e nem sei...? Ou então, que é uma coisa absolutamente normal, que eu deveria estar mais do que acostumada e nem deveria estar perdendo meu tempo falando nisso...?

Ah, deixa pra lá. Afinal, essas coisas do coração não se explicam mesmo...

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Por que nós, jornalistas, somos tão queimados?





Por quê?
Por quê??
Por quê???



Diz aí...

terça-feira, 15 de abril de 2008

Cores, cheiros e gostos: o frio e as pequenas lembranças

Não sei se é assim mesmo, mas acho que temos algum tipo de memória que está seriamente ligada a cores, cheiros e gostos que a gente vê e sente umas poucas vezes na vida e passa a se lembrar para sempre. Falo isso porque o entardecer que eu passava sozinha lá em casa, quando criança pequena, tinha uma cor que hoje não tem mais. Certa vez eu falava disso com o Handreh e ele me contou que quando acordava havia um cheiro, que hoje também não existe.

E eu pensei nisso hoje porque o frio – todo e qualquer frio – sempre me lembra um gosto que senti uma única vez na vida: o gosto de fondue de chocolate que comi lá na chácara da minha tia. Fazia um frio de arder e o céu tinha cor escura. Lá fora, apenas o balançar das árvores que rechearam um dia de brincadeiras no campinho, e que agora era utensílio para incrementar histórias do Mapinguari (sim, eu ouvia de olhos arregalados e morria de medo mesmo, de verdade, a ponto de jurar ter ouvido coisas durante a noite)*.

Éramos um monte de primos agasalhados em volta de um potinho com um creme de chocolate que permanecia quente por um foguinho em baixo. E aí a gente comia com frutas diversas: morango, banana, maçã, uva. Eu lembro que os morangos acabaram primeiro e que também fizeram um fondue de queijo, mas este era só pros adultos. Eu mesma não queria, era amarelado e sem graça.

Hoje, quando o frio vem, vem também um desejo por chocolate. Meu pai tem o costume de comprar o doce no frio porque ele odeia chocolate derretido, que é como fica nos dias mais quentes. Mas nenhum tem o gosto de fondue que comi num entardecer friorento na chácara da minha tia. Para ser sincera, talvez eu nem lembre que gosto tinha de verdade. Talvez eu lembre mesmo é somente da sensação daquele frio que também não existe mais.


*E quanto ao Mapinguari, quem contava as histórias era meu tio. E eu lembro bem quando descobri que estava sendo enganada. Mas não foi nada traumático, pelo contrário, só eu sei como fiquei aliviada. Numa certa noite lá na chácara, meu tio, eu e um primo mais novo conversávamos na beira da piscina. Meu tio, já meio sob efeito de umas cervejinhas, contava as histórias e dava uma piscadela para mim e virava o olhar pro meu primo. E aí eu entendi que ele queria que eu concordasse com tudo para assustarmos o então mais novo da turma. Eu saquei o jogo e nem quis fazer parte da brincadeira. Fingi não entender nada. E fim de papo.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Sobre aquilo lá...

1. Bianca ainda vive, embora eu já saiba o fim da sua história;
2. Visitem o blog: http://gritoacreano.blogspot.com/, postei lá um textinho sobre o show de metal que aconteceu no último sábado;
3. Eu ainda não assisti ao PS: Eu Te Amo, embora já saiba toda a história;
4. PS: só nesse ano eu acho que já assisti ao dobro de filmes que assisti em todos os meus vinte anos;
4. Terminei de ler o "A Menina Que Roubava Livros";
5. Eu leio best-sellers sim e não vejo nenhum problema nisso;
6. Minhas aulas na Ufac começam hoje, mas infelizmente não vou poder ir, embora esteja muito ansiosa;
7. Mas estou receosa com a disciplina de Redação Jornalística II, assim como boa parte da turma;
8. Finalmente voltei a fazer um curso de Inglês e tá dando tudo certo;
9. Sábado eu comi uma broa;
10. Eu também não achei legal a mudança da programação da Rede Globo para adequação ao fuso horário, embora eu goste mesmo é de assistir desenhos e é o que está passando na maioria das vezes em que eu ligo a TV;
11. Resolvi cancelar a assinatura da Men´s Health porque fala sempre das mesmas coisas e do mesmo jeito;
12. Agradeço, de verdade verdadeira, de coração a todos que comentaram o post anterior, tanto no blog quanto fora dele. Vocês são/foram importantíssimos e não imaginam o quanto. Obrigada meeeeeeeeesmo pela força, apoio e incentivo;
13. O Word sempre me deixa ainda mais confusa;
14. Hoje tem a I Reunião das Plenárias dos Fóruns Setoriais de Artes, Esportes e Patrimônio Cultural e estarei lá;
15. A vida é assim.

domingo, 6 de abril de 2008

O dia em que eu saí da minha banda para ser jornalista

É estranho não é? Seria mais sonoro se eu dissesse que larguei tudo para investir numa aventura radical com a minha banda de rock. Talvez fosse até o normal, portanto, não teria nada de radical nisso. Ainda penso duas vezes antes de tocar no assunto com medo de despertar algum indício de arrependimento – o que seria bem natural a meu ver, aliás, quanto mais decisões a gente toma, mais chance a gente tem de se arrepender, certo?

E vários músicos – principalmente os de rock – se vangloriam: “ah, eu larguei o último ano do curso de medicina para me dedicar à música” (tá, tudo bem, eu peguei talvez o exemplo mais apelativo, medicina não tem nada haver com jornalismo, mas afeta melhor o senso comum, ok?). E assim, quando uma em infinitas bandas de rock do mundo consegue chegar ao topo das paradas de sucesso, mostra-se logo a dedicação e o amor que os integrantes têm para a banda e para a música.

Porque Fulano largou o Direito, Cicrano largou a família e Beltrano largou o gato, cachorro, periquito e papagaio... E eu larguei a minha banda. (oh, céus, onde eu estava com a cabeça mesmo?). Sim, amo (ou amava?) a minha banda, as nossas músicas, as nossas rotinas de ensaios, shows, viagens, etc. No entanto, eu quero, preciso e devo terminar minha faculdade!


Independente de qualquer coisa, antes de qualquer topo de qualquer parada de sucesso, eu preciso dum canudinho que vai provar que eu completei o curso superior de jornalista. Mas não só isso, eu quero chegar lá me sentindo preparada não para subir num palco e fazer um show de arrasar.

Quero sim, estar pronta para viajar e fazer uma matéria sobre os costumes das mulheres chinesas (elas são umas gracinhas), cobrir uma grande mostra de arte moderna (tem um tom irônico aqui), e até ser professora e ensinar meus alunos a serem artistas, digo, jornalistas.

Adeus palcos dos Gritos Rocks, adeus palcos dos Varadouros, adeus palcos das Catraias... É, o dia em que eu saí da minha banda para me dedicar à faculdade eu me senti meio louca. Mas os grandes acontecimentos desse mundo que deram certo não nasceram de puras sanidades mentais (disso eu tenho quase certeza).
E nesse mesmo dia, eu me senti nadando contra a maré. Por incrível que pareça, acho que ninguém se preocupa mais com o futuro profissional de ninguém. As coisas nesse mundo mudaram mesmo. Quando eu falei: “vou sair da minha banda, preciso de mais tempo para estudar”, quase fui apedrejada, acredita? Pois é. Gente, ter banda não é fácil. É uma profissão também, assim como um outro trabalho, assim com ser estudante. É preciso organização, tempo, dedicação, responsabilidade, paciência, e mais uma porção de coisas para fazer dar certo.

Eu não conseguiria – aliás, eu nunca pensei nisso – medir o grau de prazer entre fazer música e fazer uma entrevista e escrever uma matéria. Ah, fala sério, são coisas incomparáveis e eu preciso escolher. E eu não quero ser a do contra, eu apenas quero ser normal. Portanto, adeus banda! E que venham as pautas, os releases e os furos de reportagens. Felizes daqueles que conseguem conciliar. Quem sabe um dia eu chego lá.

E sabe do que mais? O interessante é que agora, definitivamente, eu não vou falar como baixista de banda ou como musicista (apesar de nunca ter me auto-intitulado assim), falarei apenas como jornalista.

Portanto, adeus também às crises existenciais. Sei que vai ser difícil deixar de ser a “Gigi Rock Star” (como brincavam comigo lá na faculdade), e, mais ainda, deixar de me sentir a baixista da Blush Azul. Sei que não vou poder mais me utilizar de ensaios e shows como desculpa para faltar aulas, fazer provas em outros dias e, muito menos, para sair mais cedo do trabalho.

No entanto, melhor que tudo isso, eu sinto como se o mundo se fechasse de um lado, mas que de outro, um universo inteiro estivesse à minha espera.

E eu vou, não dividida, dessa vez eu vou de corpo inteiro, assumir, de fato e exclusivamente, um papel jornalista, acreditando realmente que devemos viver nossos sonhos no presente sem deixar de ter planos para o futuro.

Lidar com as palavras vai ser, enfim, a minha arte principal.


terça-feira, 1 de abril de 2008

mais um dia de uma vida única: e tudo começa com chuva e bicicleta

Hoje cedo, enquanto todos dormiam, eu andava de bicicleta – NA CHUVA! Passava a língua ao redor da boca e sentia gostinho do que eu chamo de vida. Pensei na possibilidade de ter um Mp3, mas não sei bem qual seria a trilha perfeita e melhor que o som que faz quando as nuvens estão ganhando leveza.

Eu precisava me concentrar na história que contaria em casa: "Minha bicicleta precisava dum banho". O problema era o relógio não à prova d´água, encharcado no meu pulso. Mas nada que um pote de farinha não resolvesse...

Depois disso tudo, meus pais discutiam na cozinha uma notícia que deram na Tv. Meu pai a conferia no jornal impresso, minha mãe fazia tapioca e eu calçava meu allstar. “Homem que teve olho arrancado corre o risco de ficar cego”, era mais ou menos assim. Depois pularam pra histórias como “Mulher se mata com dois tiros...”...

Meu pai faz questão de repetir o fato fazendo uma encenação; e eu penso “não posso esquecer o relógio dentro do pote de farinha”, e minha mãe apressa tudo e todos pra não chegar atrasada na escola. A gente comenta algo sobre a saúde de alguém e o emprego de outro.

Ficamos tristes, ficamos felizes e rimos um pouco. E então, cada um vai pro seu mundo, viver mais uma manhã, de mais um dia, que compõe mais uma semana, integrante de mais um mês, de mais um ano, de uma única vida...

quinta-feira, 27 de março de 2008

Como uma bailarina numa caixinha de música

Sei dizer não. E isso não me preocupa tanto. Não saber explicar, não entender. É quase monótono de tão comum. Mas dá raiva sim. Faz as pernas tremerem e o coração bater mais rápido. E a raiva não é do ser, é do sentir. Eu poderia oferecer um abraço e um silêncio que traduzisse algumas palavras humildes e de consolo. “A vida é assim”, “eu não fiz por mal”, “não me ache uma pessoa má”. Queria até oferecer os meus ouvidos ao sofrimento, à perturbação que eu não sei bem se existem mesmo. Queria confortar. E assim, seria bem confortada. Saber que está tudo bem. Eu não consigo falar em feiúra, alívios, posso falar em arrependimentos. Sei lá. Talvez, eu não deva ter seguido a receita direito. Talvez tenha esquecido alguns ingredientes, então, me sobre um doce adocicado demais.

E assim eu fico com uma vontade de tapar tudo com uma cortina preta. Preta por fora. Quase como luto. Mas, por dentro, amarela, com grandes flores alaranjadas, umas menores de tonalidades verde-escuras, e umas médias rosa-marfim. E então o meu ar vai ser só meu. O que me trazia um indício sequer de algo negativo ou duvidoso, eu abandonei e desapareceu. Da minha mente, da minha memória, da minha vida. Quando se está só, o vazio fica mais próximo. Como o neutro. E aí fica tudo mais claro. Objetivo. Determinado. Livre. Contraditório né? Aponto o dedo para eu mesma, por tantas vezes não levar a sério essa brincadeira de esconder meus olhos entre as entrelinhas e conseguir mudá-los de cor.

terça-feira, 18 de março de 2008

Caras e Caretas. Máscaras e Caricaturas




“e o caos segue em frente, com toda a calma do mundo” (R.R)






O coração dispara meio arrependido. Os cabelos deveriam sair da nuca mais facilmente. Queria sentir a lisura. Reluzente. Como um raio de sol forte, daqueles que colorem o fim de tarde. Ah, essas cores... Azuis e desbotadas. A lua que me aparece nem de porcelana é. Um plástico barato, de uns poucos centavos. Minha luz se apaga e ela brilha. Não é de São Jorge nem de qualquer outro santo. Eu não entendo nada de santos, mas já carreguei no pulso correntinha da Nossa Senhora Desatadora de Nós. Os altares não cabem na minha janela, nem olho mais. Medo de me afogar. Não quero mais falar de decisões. Bianca vem aí para ser a terceira pessoa, quase gêmea da primeira, assim, como o signo de gêmeos que é quase dois ou quatro opostos. São caras e caretas, máscaras e caricaturas.


“... tudo o que não me interessa agora eu jogo fora, e se vai, como o Sol, que se esconde ou se espalha, que aquece ou atrapalha, que derrete ou agasalha...” (L.P)


A luz é escorregadia e pisca de forma assistemática. Não é questão de falta de coragem. É outra, são outras personalidades. Uma pesa pouco mais de 10 quilos. Outra, beira os 70. No travesseiro, formigas fazem festa. É real e normal. Será que eu posso ouvir? Alguém chama pelo meu nome, mas estou vazia e com corpo frio. Meu nome vai e eu fico aqui. Joelhos e ombros desalinhados beiram alguma coisa que ninguém quer saber. Abri as cortinas por engano, e o sol que entrou, entrou rápido e forte demais. Me senti cega e com os olhos quase secos e me chamei de volta. Volta. Volta. Fiquei atrás da porta. Não em busca, mas parada ali. O nome foi para o chão e os pés se apoiaram na parede – cor de rosa, como um ex-mundo. O corpo cabia, frágil, naquele pequeno corredor ante-quarto. Acima, um quadro preto e branco, feito a lápis há 10 ou 14 anos. Não era espelho. Era um retrato feito por um alguém qualquer numa madrugada já cheia de sono. Estava quase sonhando e levantei o rosto num susto para fazer pose. Tudo foi congelado num sincero sorriso falso. E quem diria... Quem diria que se sentiria tão velha e teria vontade de ter força e quebrar, silenciosamente, aquele vidro, rasgar aquele papel e fazer mágica. Fazer mágica. Mágicas mentiras vistas com glamour. O glamour existia e as mágicas também. E tudo isso agora é apenas um ar rarefeito. Bem mal-feito. E então? Quais segredos serão deixados agora no baú de frases soltas? Quais segredos serão amigos e me farão conhecer como sou, fui e serei? E agora? Patética mania de acreditar. Continuar a matança para ser feliz. Desviando o ego pro rumo da ignorância.


Foto: mais uma do Parque Capitão Ciríaco

quinta-feira, 13 de março de 2008

Bianca vai de ônibus

(pro longe do bem perto)

Viveu um dia triste. Como num final de um mini-romance que não tem final feliz. Os olhares nem se despediram e partiram por caminhos oposto. Bianca viveu e tenta sobreviver. Estava com os olhos pintados, cabelo escovado e brilho nos lábios, por isso, deve ter chamado a atenção dele. Ele – desconhecido, portanto ainda sem nome - de pouco sorriso e olhar discreto, deveria passar despercebido se não fosse o tom misterioso e o livro que carregava em mãos.

Subiram no mesmo ônibus e sentaram em extremidades exatamente opostas. Ela tentava decifrar algum reflexo. Ele, de cabeça baixa, lia o livro e vez e outra levantava o olhar fitando tudo à sua volta.

Era uma das raras noites em que Bianca voltava pra casa sozinha e de ônibus. Gostava do andar solitário nas ruas escuras. Quando se está só, se está como se realmente está. Medo ela tinha sim, mas queria testar o seu humor. Queria testar o seu olhar quanto às constelações e se ainda sabia como contar as cores no céu.

Às vezes, ela vem de sorriso solto, vendo aviões e até estrelas cadentes (quem vai dizer que nunca viu?). Em outras ocasiões, vem saltitante e cantando sambinhas do Chico. Mas também há aquelas noites em que ela vem de passo desconsolado e dor no queixo – pela mania de prender o choro.

Bianca também olha as vitrines e deseja saltos de gala. Não que ela seja uma pessoa assim, de consumismo exagerado ou que siga as últimas tendências da moda. Mas ela gosta de sonhar e fazer pose na frente do espelho – mas só na frente do espelho.

Ela ainda pode voltar chutando pedrinhas e se assustando com os vigias noturnos. Ao chegar à sua casa, ela toma uma decisão. E naquela noite, ela sentiu e compreendeu algo do seu inconsciente e que, portanto, passou a ser consciente. Algo que tinha haver com se preparar para ter que esquecer. E por isso, seguia de olhar caído.

Inicialmente, o jovem leitor que encontrara parecia com um tal artista de rua, de costeletas bem delineadas e charmosinhas. Ela olhou e olhou mais uma vez, porque não reconheceu costeleta nenhuma e porque não era o artista de rua. Era um outro qualquer. Sabe-se lá se artista ou não.

E os dois desceram exatamente na mesma parada. Bianca achou engraçada a coincidência e até esperou alguma surpresa a mais, pois achava que já conhecia muito bem aquela vizinhança. Ela reparou e ainda lembra cada segundo das suspeitas e descobertas: o inclinar dos corpos para olhar as ruas e reconhecer que estavam próximos a chegar; e preparo das mãos para puxar a cordinha; o andar até a saída - depois de ter a certeza que a descida era mesmo ali, e tudo, tudo, tudo, mais...

Sorte ou azar, mas alguém não planejou bem. Bianca não entendia os papeis de ninguém: nem do perseguidor nem da perseguida. Ele, meio estranho, ficou em dúvida se olhava pra trás – o que ela torcia pra acontecer. Ela teve a oportunidade de voltar os olhos e ele, de voltar o passo. Mas era noite escura e apesar de silenciosa, nada mais podia acontecer, a não ser a travessura de uma carta anônima, escrita às avessas e meio inventada.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Mudanças

São necessárias


Afinal, fazem parte da vida

Falem em contradições. Se a natureza pode, por que não nós?

*Ao amor, hoje, em especial.
(“As folhas que caem avisam a chuva que está por vir...”)

*Fotos: de volta ao trabalho, Parque Capitão Ciríaco