.


Que conversa é essa? De palavras às vezes irreais e sem sentido. Não que seja falta de compreensão, é apenas um outro olhar de olhos que nem sei se valem a pena perseguir. Ser sem sentido se traduz por ser sem motivo. Ou sem motivos. Invisíveis e presentes apenas em algumas canções sem melodia.
Não sei se é assim mesmo, mas acho que temos algum tipo de memória que está seriamente ligada a cores, cheiros e gostos que a gente vê e sente umas poucas vezes na vida e passa a se lembrar para sempre. Falo isso porque o entardecer que eu passava sozinha lá em casa, quando criança pequena, tinha uma cor que hoje não tem mais. Certa vez eu falava disso com o Handreh e ele me contou que quando acordava havia um cheiro, que hoje também não existe.
*E quanto ao Mapinguari, quem contava as histórias era meu tio. E eu lembro bem quando descobri que estava sendo enganada. Mas não foi nada traumático, pelo contrário, só eu sei como fiquei aliviada. Numa certa noite lá na chácara, meu tio, eu e um primo mais novo conversávamos na beira da piscina. Meu tio, já meio sob efeito de umas cervejinhas, contava as histórias e dava uma piscadela para mim e virava o olhar pro meu primo. E aí eu entendi que ele queria que eu concordasse com tudo para assustarmos o então mais novo da turma. Eu saquei o jogo e nem quis fazer parte da brincadeira. Fingi não entender nada. E fim de papo.

E nesse mesmo dia, eu me senti nadando contra a maré. Por incrível que pareça, acho que ninguém se preocupa mais com o futuro profissional de ninguém. As coisas nesse mundo mudaram mesmo. Quando eu falei: “vou sair da minha banda, preciso de mais tempo para estudar”, quase fui apedrejada, acredita? Pois é. Gente, ter banda não é fácil. É uma profissão também, assim como um outro trabalho, assim com ser estudante. É preciso organização, tempo, dedicação, responsabilidade, paciência, e mais uma porção de coisas para fazer dar certo.
Eu não conseguiria – aliás, eu nunca pensei nisso – medir o grau de prazer entre fazer música e fazer uma entrevista e escrever uma matéria. Ah, fala sério, são coisas incomparáveis e eu preciso escolher. E eu não quero ser a do contra, eu apenas quero ser normal. Portanto, adeus banda! E que venham as pautas, os releases e os furos de reportagens. Felizes daqueles que conseguem conciliar. Quem sabe um dia eu chego lá.
No entanto, melhor que tudo isso, eu sinto como se o mundo se fechasse de um lado, mas que de outro, um universo inteiro estivesse à minha espera.
Sei dizer não. E isso não me preocupa tanto. Não saber explicar, não entender. É quase monótono de tão comum. Mas dá raiva sim. Faz as pernas tremerem e o coração bater mais rápido. E a raiva não é do ser, é do sentir. Eu poderia oferecer um abraço e um silêncio que traduzisse algumas palavras humildes e de consolo. “A vida é assim”, “eu não fiz por mal”, “não me ache uma pessoa má”. Queria até oferecer os meus ouvidos ao sofrimento, à perturbação que eu não sei bem se existem mesmo. Queria confortar. E assim, seria bem confortada. Saber que está tudo bem. Eu não consigo falar em feiúra, alívios, posso falar em arrependimentos. Sei lá. Talvez, eu não deva ter seguido a receita direito. Talvez tenha esquecido alguns ingredientes, então, me sobre um doce adocicado demais.
E assim eu fico com uma vontade de tapar tudo com uma cortina preta. Preta por fora. Quase como luto. Mas, por dentro, amarela, com grandes flores alaranjadas, umas menores de tonalidades verde-escuras, e umas médias rosa-marfim. E então o meu ar vai ser só meu. O que me trazia um indício sequer de algo negativo ou duvidoso, eu abandonei e desapareceu. Da minha mente, da minha memória, da minha vida. Quando se está só, o vazio fica mais próximo. Como o neutro. E aí fica tudo mais claro. Objetivo. Determinado. Livre. Contraditório né? Aponto o dedo para eu mesma, por tantas vezes não levar a sério essa brincadeira de esconder meus olhos entre as entrelinhas e conseguir mudá-los de cor.